quarta-feira, 24 de março de 2010

O que é Ciência?

Afinal de contas o que é Ciência?

Gostaria de fazer uma pesquisa entre a população brasileira para saber a porção de nossa população que sabe responder à esta pergunta. Fica aqui uma primeira sugestão às pessoas do Ministério da Ciência e Tecnologia pois, afinal de contas, dinheiro público é gasto com o tema e seria interessante que o povo brasileiro soubesse o destino final do seu suado dinheirinho.

Apesar da sugestão, o intuito destes artigo não é o de discutir as políticas públicas do Governo Brasileiro, mas sim o de informar ao leigo o que vem a ser Ciência.

Pela definição do Dicionário Aurélio, temos:
s.f. Conjunto organizado de conhecimentos relativos a certas categorias de fatos ou fenômenos. (Toda ciência, para definir-se como tal, deve necessariamente recortar, no real, seu objeto próprio, assim como definir as bases de uma metodologia específica: ciências físicas e naturais.) / Conjunto de conhecimentos humanos a respeito da natureza, da sociedade e do pensamento, adquiridos através do desvendamento das leis objetivas que regem os fenômenos e sua explicação: o progresso da ciência. // Ciência pura, ciência praticada independentemente de qualquer preocupação de aplicação técnica. // Ciência política, politicologia.

A meu ver tal definição não é completa (não estou dizendo que é errada) por dar margem à uma série de conclusões possíveis a respeito do que vem a ser Ciência. Falar sobre Ciência sem mencionar o Método Científico desqualifica o significado da palavra.

Ciência para mim é o "conjunto organizado do conhecimento baseado em fatos observáveis e possíveis de serem falseados por experimentos".

Sim! A Ciência a que me refiro aqui é a Ciência experimental, não à todas as possibilidades (filosofia, por exemplo) a que se refere o texto do Dicionário Aurélio. Para mim a Ciência real é aquela que vai ao Laboratório. Que testa as hipóteses teóricas, as confirmando ou as refutando.

Uma determinada teoria científica deve passar pelo crivo da experiência para ser admitida como uma realidade da natureza. Sem o experimento que confirme a hipótese, não existe Ciência. Ponto final.

Claro que existem N maneiras de discutir o mundo, mas só existe uma forma de discutir a natureza de forma científica: submetendo a idéia ao experimento.

Dessa maneira, amigo leitor, quando você ouvir falar sobre alguma coisa "científica" você deve ter em mente que:

a) Alguém pensou muito no assunto, criando uma hipótese a respeito do tema estudado;

b) Tal hipótese foi exaustivamente testada experimentalmente em vários laboratórios ao redor do mundo;

c) "Todos" estes labaratórios confirmaram as predições teóricas, dentro da margem de erro aceita (1% pelo menos).

Agora sim! A hipótese virou "Teoria Científica" que nada tem ver com o significado "mundano" da palavra "teoria". Para a Ciência, uma "Teoria Científica" é um bem acabado e exaustivamente testado conjundo de hipóteses que explicam uma ampla gama de fenômenos naturais.

Notem aqui um detalhe interessante nessa frase: "EXAUSTIVAMENTE TESTADO". Aqui é a experiência que define a realidade da hipótese e não a vontade da pessoa que constrói a teoria. Se a hipótese (ou hipóteses), que tentam explicar um determinado fenômeno natural, for contestada EXPERIMENTALMENTE a teoria deixa de valer, ou passa a ser considerada uma simples aproximação da realidade natural.

Um exemplo muito simples de hipótese sobre o mundo natural que não passou pelo crivo da experiência foi a hipótese do "calórico". O que era o calórico? A teoria calórica supunha a existência de um fluído invisível e inodoro, o calórico, que todos os corpos deveriam possuir e que causava as alterações de temperatura observadas. Hoje sabemos claramente que temperatura nada mais é do que o grau de agitação médio das moléculas que compõe um sistema. Não existe o "calórico". A experiência refutou a hipótese do "calórico".

Um exemplo mais sútil de hipótese a respeito do mundo natural, que deve ser considerada como uma simples aproximação do comportamento da natureza, é a Teoria da Gravitação Universal Newtoniana, que afirma que a força gravitacional entre corpos de massas conhecidas é inversamente proporcional ao quadrado da distância entre estes corpos (quanto maior a distância entre os corpos menor, quadraticamente, será a força gravitacional entre eles) e diretamente proporcional ao produto destas massas.

A Teoria (com T maiúsculo) Newtoniana da Gravitação foi (e é!) bem sucedida em explicar uma ampla gama de fenômenos naturais observados, desde o movimento da Lua, o movimento das marés, de satélites, de cometas, de planetas e muitos outros. No entanto uma observação em especial fez com que tal Teoria fosse reformulada.

A Teoria Newtoniana explicou de forma categórica o movimento dos planetas ao redor do Sol, sendo possível, inclusive, deduzir as três leis de Kepler a partir desta. No entanto o planeta Mercúrio apresentou um comportamento problemático pois o seu periélio (o ponto mais próximo da órbita do planeta em relação ao Sol) apresentava um movimento de precessão muito maior do que o observado pelos outros planetas.

A explicação física do fenômeno era simples: por estar mais próximo ao Sol, tal movimento de precessão era mais acentuado do que o dos outros planetas. O problema real era o de calcular corretamente o valor dessa precessão utilizando a Teoria da Gravitação disponível, ou seja, a Teoria de Newton.

A Teoria Newtoniana ainda fornecia resultados muito precisos a respeito do fenômeno, ou seja, segundo esta Teoria:

- a órbita descrita por Mercúrio ao redor do Sol era uma órbita elíptica (fato observado experimentalmente);

- o periélio, segundo a mesma Teoria, deveria avançar 5700 segundos de arco por século (quase lá).

No entanto o observado em tal avanço do períélio era de 5743 segundos de arco. Uma discrepância de 43 segundos de arco por século que a Teoria Newtoniana não consegui explicar.

Foi preciso uma nova Teoria da Gravidade para que tal discrepância fosse eliminada, e esta foi a Teoria da Relatividade Geral de Einstein, que afirma que as leis da Física deverm ser as mesmas para quaisquer tipo de referenciais, inerciais ou não.

Um fato interessante é que a Teoria Newtoniana pode ser obtida, matematicamente, da Teoria da Relatividade Geral Einsteineana desde que façamos algumas aproximações matemáticas.

Citei estes dois exemplos para mostrar o que é uma Teoria Científica (Relativiadade Geral), o que é uma Teoria aproximada (Gravitação Newtoniana) e o que é uma simples bobagem (calórico).

No entanto esta hierarquia não é fixa. A não ser pelas simples "bobagens" (que descartamos imediatamente) pode-se sempre observar algum fenômeno que alguma teoria não explique com toda a precisão estatística necessária.

Poderíamos, por exemplo, observar algum evento natural que não fosse explicado detalhadamente pela Teoria Geral de Einstein (na verdade isso acontece, mas não vamos entrar em detalhes para não fugirmos do assunto principal) e seria necessário, então, uma Teoria mais completa.

É nesse ponto que reside a beleza do método científico. A Ciência é "auto-limpante"! Ou seja, ela se corrige ao longo do tempo. A Ciência não é um conjunto hermeticamente fechado de conhecimentos, isso é dogma e dogma não serve.

Por isso não devemos nos surpreender quando vemos fatos naturais novos contestando ideías científicas. Isso é absolutamente natural e deve ser assim mesmo.

Ciência é "idéia+experiência".

Só idéia não basta.

2 comentários:

  1. Olá Sérgio!
    Acabei de encontrar seu blog e gostei muito!
    Também fiz um blog sobre ciência recentemente, e pelos tópicos que li do seu blog acho que temos muitos interesses em comum! Tenho fascínio pela física, por isso tb gostei de achar seu blog!

    E quanto a este tópico gostei da forma que você conceituou a ciência. Só mais um comentário: filosofia não é vista como uma forma de "ciência", como alguém que ler o seu post pode concluir, e sim como uma "forma de conhecimento", um método.

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  2. Eu nem perco tempo com filosofia...rs

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